sexta-feira, 20 de maio de 2011

Angustiar para Ser

Angustiar para Ser
Pensar nos leva a angústia, leva ao medo. Talvez esteja aí o dificuldade de aprender a filosofar, pois saber pensar dar medo, causa angústia. A ignorância nos dar uma sensação de conformidade com o que quero como real, nesta fase me preencho com uma fuga do real para o imaginário. Cria- se uma forma de vida, e não informação do meu existir.
Seguindo a idéia de Kierkegaard, na sua perspectiva de angústia, ele nos alerta para uma fuga, apegar-se num papel, criar uma personagem é vivê-lo como se a vida fosse um conto de fadas, diria fugir do real. Pois para o autor somos seres livre, cheios de possibilidades, mas ao deparamos com essa liberdade, ela gera ao homem a angústia, o que pode levá-lo ao desespero. Neste ato de desespero ele pode fugir do seu existir. Ao invés de encontrar com sua existência ele fantasia seu própria existir. Como a personagem da obra de Clarice Lispector na obra “A hora da estrela” Macabéa que não encontra consigo mesmo na vida, procura ajuda de uma cartomante para dar sentido a sua existência, até então aquela nordestina que não tinha existência diante do mundo carioca, passa a sonhar, ia encontrar seu grande amor, seria mulher de estrangeiro. No entanto o que essa personagem não sabia é que a cartomante só alimentou o sonho, aqui no sentido de (fuga do real), pois uns instantes ela assumiu o personagem de mulher feliz e realizada, esquecendo que sua vida era medíocre e sem grandes anseios de bom futuro. Esqueceu que ser livre é conhecer seu próprio existir, e não transcender para algo que à sua personalidade não pertence.
Na procura pela liberdade, de existir, esqueço que ser livre é lidar com o sentimento de desespero. Deparar comigo mesmo é muito difícil, sentir causa dor, por isso prefiro ver o outro, falar do outro, é mais cômodo e não me dar a certeza que a vida é pura angustia, e quem sabe até procurar uma “cartomante” para me guiar no meu existir. Ser para mim e muito difícil. É constrangedor lidar com o fato de que como humano sou limitado, sou um ser para o fim, ou para a morte, ter contato com a definição de mim é encontrar com meu presente, que segundo o Rubem Queiroz Cobra em seu texto “ Existencialismo” diz : “na angústia, o homem experimenta a finitude da sua existência humana. Todas as coisas supérfluas em que estava mergulhado se afastam deixando-o a nú, como uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zum Tode). Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve seus conflitos. A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.”
No entanto a angustiar causa mal estar, mas é necessário, posso dizer, sem medo, que é um mal necessário, angustiar é doloroso, mas nos ensina a tornar humano e estar para o mundo, citando a personagem de Clarice Lispector ,Macabéa,que quando em vários momentos se vê perdida na sua personalidade e procura na angústia um encontrar consigo mesmo, e descobre que morrer é necessário, morrer é existir, aqui diria que a morte existência é necessária a todos, a narradora diz: “ ela estava enfim livre de si. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo”(pag.105). Mas o difícil para cada ser vivente é compreender que a angustiar e morrer são bens necessário e passam.
E como diz a professora Claudia Murta a angústia, “...para os que conhecem a sensação, sabem como ela é terrivelmente real (...) ... oferece um desafio àqueles que procuram estabelecer, sobre a mesma, distinções estritas, pois ela tende infalivelmente a cair entre as múltiplas distinções”. (...) a angustia esta representado em nosso real, é afeto de nosso existir. Mas como é duro lidar com esse afeto.
Dentre muitos fatores falar da angústia e despertar em mim o desejo de aprender a lidar com o sentimento de angustiar, saber conjugar esse verbo é aprender a nomear cada situação que ele me proporcionar, que o mesmo venho em forma de afeto como diz Lacan, em forma de liberdade como diz Kierkegaard ou como ressurgir, morrer para a existir, para Heidegger. O importante é que não se vive bem sem angustiar. Necessitamos de angústia para o bem viver, para compreender que temos um presente para ser vivido, o passado para ser lembrado e um futuro para idealizamos.
Como nos diz a professora Claudia Murta em seu texto, “ A ANGÚSTIA E O RESTO ENTRE KIERKEGAARD E LACAN” ,

“O fenômeno da angústia, graças a sua ligação com o nada, mostra como o ato humano não se explica nem pela necessidade, nem por uma liberdade abstrata, mais abstrata ainda que a necessidade; graças a seu caráter de ambigüidade que prepara uma ruptura, explicita a mistura de liberdade e determinação que está no pecado e por mostrar como o pecado é, ao mesmo tempo, individual e universal. O fato de a angústia preceder e seguir o pecado permite encontrar na própria angústia um elemento comum entre o pecado original e os outros. Para Kierkegaard todo homem é angustiado, mesmo o mais feliz de todos. A angústia é característica humana. Quanto maior é a sua angústia, mais humanizado se torna o homem”.

Portanto pensar em angústia é acreditar, no desenvolvimento existêncial, na possibilidade de viver para ser humano. Como diz Clarice Lispector na obra a Hora da Estrela, “(...) só não início pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida(...) ”(pag.26). A partir do momento que crermos que a morte existencial é a possibilidade de crescimento para o bem viver comigo e com o mundo, podemos morrer fisicamente, entendendo que (...) assim como ninguém lhe ensinara um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela(...) ( pag.44).

Bibliografia:
Lispector, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro, Ed. Rocco. 1998.
COBRA, Ruben Queiroz. Existencialismo, 04 jun. 2001. Disponivel em < http://www.cobra.pages.nom.br/ftm-existencial.html>. Acesso em: 15 abril 2011.
MURTA, Claudia. Pessoa, Fernando. Angústia e Psicanálise. Vitória, ES: Universidade Federal do Espírito Santo, Núcleo de Educação Aberta e a Distancia, 2011.

PAIXÕES: O ANSEIO DO HOMEM

PAIXÕES: O ANSEIO DO HOMEM
FABIANO MADEIRA LACERDA
Graduado em letras, pela Universidade Iguaçu, graduando em Filosofia pelo Centro Universitário de Araras” Dr. Edmundo Ulson”, especialista e Gestão Escolar, pela Faculdade Capixaba de Nova Venécia.
Resumo
Falar de paixões e uma tarefa difícil, pois é um sentimento inerente ao ser humano, é um busca constante de poder estar sempre em contato com a mesma. Como nos diz Condillac,a  paixão é como "um desejo que não permite ter outros, ou que, pelo menos, é o mais dominante". Ou como nos fala Freud Paixão é percepção do externo. Para Hobbes o que faz o homem e o resultado do mundo externo, é a relação de prazer e desprazer.
Palavras chave: paixão, sujeito, desejo, prazer , desprazer.
Percorrer o mundo das paixões é uma aventura interminável. Não sabemos por onde começar, se é que a mesma existe começo.  Nem mesmo se ela existe. Pensar a paixão é procurar entender um pouco da subjetividade do ser Humano, é buscar no íntimo de cada Ser o que ele pode transmitir  de prazer ao estar em contato com o outro, com seu diferente.
A paixão é lidar com o obscura, com o imaginário, com o fato de que cada ser não tem domínio de se mesmo. E provocar no natureza humana a sensação de prazer e desprazer. Ela de deixa o homem em estado de loucura. A origem da palavra vem do termo grego “pathos” que também dá origem ao termo Patologia, que quer dizer, o Estudo das Paixões.
Como nos diz Leda Motta
 “... os apaixonados estão enamorados ou de si mesmos ou de um outro ideal. E nos dois casos hipnotizados. Sujeitos plenos, sim, porque o amor é um sentimento oceânico, mas pleno de seu próprio discurso amoroso. Perfeitamente logrados, em todo caso, não estarão nunca no objeto”.
A loucura , ou mal estar do homem, permite a ele ir de um estado de prazer ao desprazer, proporcionando ao mesmo um estado de estruturação mental. Ou seja, um momento de consciência de si mesmo. È comum após uma longa paixão o ser humano dizer que aprendeu algo com determinada paixão. Freud, procura explicar que a partir do momento que tomamos consciência de nos mesmo, do nosso Eu, podemos chegar a idéia do prazer e desprazer que uma paixão pode nos causar. A mesma estaria na nossa consciência.
Hobbes em Leviatã, na Primeira Parte: Do Homem
. Sobre a origem interna dos movimentos voluntários chamados paixões e a linguagem que os exprime, nos diz:
[...]
Paixões simples, como as chamadas apetite, desejo, amor, aversão, ódio, alegria e tristeza recebem nomes diversos conforme a maneira como são consideradas. Em primeiro lugar, quando uma sucede à outra, são designadas de maneiras diversas conforme a opinião que os homens têm da possibilidade de conseguir o que desejam. Em segundo lugar, do objeto amado ou odiado. Em terceiro lugar, da consideração de muitas delas em conjunto. E em quarto lugar, da alteração da própria sucessão. Paixões simples, como as chamadas apetite, desejo, amor, aversão, ódio, alegria e tristeza recebem nomes diversos conforme a maneira como são consideradas. Em primeiro lugar, quando uma sucede à outra, são designadas de maneiras diversas conforme a opinião que os homens têm da possibilidade de conseguir o que desejam. Em segundo lugar, do objeto amado ou odiado. Em terceiro lugar, da consideração de muitas delas em conjunto. E em quarto lugar, da alteração da própria sucessão.
[...]
O porquê, o como e o desejo de saber chama-se curiosidade, e não existe em qualquer criatura viva a não ser no homem. Dessa forma, não é só por sua razão que o homem se distingue dos outros animais, mas também por esta singular paixão.
[...]
A paixão é um prazer, ela se manifesta de formas diversas, pois a sensação de prazer em cada ser se manifesta no sujeito de forma física e psíquica, proporcionando o prazer, o que para Freud estaria no mundo exterior, evidentemente pela sua filiação ao mecanismo.
Freud em sua teoria do prazer, dividiu o entendimento do homem em conjuntos de neurônios, citarei aqui somente o terceiro. Este Terceiro conjunto ele o nomeou de ômega, onde ressaltou o fato de que seus “ estados de excitação dariam como resultado as diferentes qualidade, ou, seja seriam as sensações conscientes”como diz o professor Bocca. Dessa forma pode transformar as informações externas, em qualidades para a formação de cada sujeito. Somos um conjunto de neurônios que percebe , que se encontra em constante contato com o mundo, buscando assim uma melhor relação entre o que nos proporciona prazer e desprazer, o que nos leva a busca da paixão e do bem estar.
Boca diz:
“ registremos desde já que a própria” tradução” das qualidades em quantidades que é operada por esse terceiro sistema permite mais uma vez oportunizar a função primaria do sistema, que é a de por mais essa via, escoar os estímulos, as quantidades excessivas (portanto, o desprazer), conferindo-lhes qualidades, tornando-os conscientes, instaurando o processo secundário. Sempre operando sobre estímulos que rompem e alcançam a terceiro sistema sem serem barrados.
Estamos condenados a estarmos neste mundo em constante mudança na busca de seleções, na tentativa de sabermos escoar o que a nos não é necessário, pois temos que ressaltar em nossa memória aquilo que a nos nós da mais prazer, escoar de nossa memória o desprazer. No entanto antes de fazermos este escoamento, temos que já termos tirado proveito do mesmo.      Nessa tentativa de aprendemos, passamos a pensar como             Condillac, que imagina o homem como uma estátua, privada de toda sensação (tábua rasa) e que, em dado momento, começa a ter uma sensação de olfato. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória, quando, afastada a primeira sensação e sobrevindo outra, a primeira permanece com uma intensidade atenuada.
             Comparando a sensação atual com a sensação lembrada, nasce a distinção entre presente e passado; a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação); a consciência, o eu, que é uma coleção de sensações atuais e lembradas; o juízo, que é comparação entre sensações presentes e passadas; a reflexão, isto é, a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação - idéia ou relação, juízo - em uma série de idéias e juízos; a abstração, isto é, a separação de uma idéia de outra; e a generalização, isto é, a capacidade de noções gerais
            Diz Condillac:
 “ Se o homem não tivesse qualquer interesse em se ocupar de suas sensações, as impressões que lhe fizessem os objetos passariam como sombras e não deixariam nenhum traço. Depois de muitos anos, ele seria como no primeiro instante, sem ter adquirido qualquer conhecimento e sem outra faculdade além do sentimento(1993,p.33)
            Nesta perspectiva  a paixão é a soma de tudo que a de melhor no sujeito que nasce para a vida, que ela seja externa, que ela venha de dentro de cada sujeito, que ela seja a memória do vivido, tudo isso importa. No entanto o que cabe a cada homem e a vontade de sentir paixão pela vida, desejo e prazer de conquistar o desconhecido, mesmo que este lhe cause medo. Portanto o que move o homem e a sensação da busca pelo que lhe provoca prazer, paixão pela vida. Paixão é ter memória agradecida por poder experimentar estar em contato com o prazer e desprazer, com o ódio e o amor, com a harmonia e desconstrução do bem estar. É saber escoar de si tudo que lhe provoca mal, e recolher do mundo aquilo que lhe dar prazer e paixão.
Conclusão:
A busca por definições, acaba sendo muito difícil, recorrer a grandes pensadores é uma grande alternativa, pois estamos em constante formação cultual e intelectual. Falar de paixões é desafiador e entender que o homem esta para vive-las, quer encontrá-las. Quer saber o que prazer e desprazer. Mas para cada Sujeito a paixão e a contribuição de todos os sentimentos e valores, e a gratidão ou a recompensa por está em busca de uma formação plena para a vida.
       
  REFERENCIA BIBLIOGRAFICA:
BOCCA, Francisco verandi. Paixões e psicanálise.Vitoria.2010
CONDILLAC,E.B. 1979: Textos escolhidos. S.P., Abril Cultural.
MOTTA, L. T. da Introdução ao livro Histórias de Amor. Julia Kristeva. Rio de Janeiro. Paz e Terra

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

SOCRATES/MAIÊUTICA


A postura de quem ensina deve ser aquela que provoca em seu aprendiz o desejo pelo conhecimento. O mestre deve provocar em seu aluno a ânsia pela busca do conhecer.

Para trazer o conhecimento de seu aluno a “tona”, o mestre precisa levar seu aluno a ter contato com sua própria ignorância e a partir deste fato ele se prontificar a buscar, ou seja, aperfeiçoar seu conhecimento. Sócrates na Grécia Antiga , na busca do conhecimento utilizava da seguinte técnica:

- Em um primeiro momento, convidava o seu interlocutor para buscar o conhecimento verdadeiro;

- Em um segundo momento, denominado Ironia, Sócrates investia no saber suposto pelo seu interlocutor;

- Por fim, o terceiro momento marca o uso da maiêutica.

Em nossos dias atuais, temos a EAD, que provoca em seu aluno o desejo pela busca do conhecer. Pois na Ead como na Maiêutica, o aluno é provocado. Com isso procura buscar soluções para as mais diversas questões, através de diálogos em fóruns, encontro presenciais com amigos de turma, com tutor e nas web conferencias .

Sendo assim esse “novo” método de transmitir conhecimento nos dá a oportunidade de nos depararmos com nossas próprias limitações e com isso sair em busca de respostas.

CARTÉIS/LACAN

Enquanto Sócrates via o homem com o conhecimento racional, Lacan apresenta uma outra leitura, a do inconsciente, onde o indivíduo utiliza o imaginário e o simbólico através da linguagem, resgatando o que é e está intrínseco em si.

Lacan apresenta a origem do conhecimento como algo já internalizado, aguardando situações para serem externadas

No EAD e em Lacan, as duas metodologias propõe a busca do saber existente em nosso inconsciente, abrindo mão, assim, da intervenção de um mestre “detentor“ do conhecimento. A idéia do Cartel é semelhante aos métodos utilizados pelo EAD, o “levar a pensar“ é o método norteador, em que o conhecimento é bilateral e a troca de idéias aponta para resultados mais expressivos e mais próximos da verdade, sendo que estas verdades são extraídas a partir do diálogo e da emancipação do aluno como ser pensante que o é, a ausência de um transmissor direto do saber estabelece com sucesso a educação aberta e a distância. O aprendizado se processa em torno de um mesmo tema; cada um produz de forma individual e soma ao coletivo, a figura do professor assume uma característica de colaborador no aspecto de mediação e se torna mais um do grupo. No aspecto psicanalítico o mestre orienta o aluno a buscar as respostas que procura em seu inconsciente e através da linguagem, as verdades transparecem. Na Psicanálise , o mestre é o inconsciente .







sexta-feira, 9 de julho de 2010

ASSISTA ESSE VÍDEO: O PODER DA MÍDIA

Mídia e Educação



                                 


O mundo atual depende cada vez mais dos veículos midiáticos e a escola, como parte da sociedade, não deve deixar de incorporar as inovações tecnológicas deste início de século.
Uma das características mais marcantes do mundo atual é a influência dos meios de comunicação de massa (mídia) na vida cotidiana. Por isso mesmo estamos freqüentemente presenciando uma polêmica sobre os benefícios e os malefícios do poder da mídia.
No que diz respeito à importância do jornal na Educação tem-se debatido, estudado, enfim, parece que o jornal está (sendo) incorporado aos modernos estudos nas diversas áreas do conhecimento. Já é consensual o fato de que o jornal pode e deve estar presente na escola. É claro, também, que esse debate não se esgotou.
Entretanto, discutiu-se muito menos sobre as outras mídias, por exemplo a rádio e a TV educativas, o uso da programação da televisão aberta e de ferramentas eletrônicas, da Internet, do cinema, de revistas não acadêmicas de circulação nacional, que poderiam auxiliar professores e alunos ao serem incorporados à sala de aula servindo de instrumentos pedagógicos. Atualmente, há grande necessidade de reflexões sobre como aproveitar os recursos da Internet sem que os alunos percam a criatividade, não permitindo que seu uso fique reduzido a “copiar” trechos e textos sem critério.
Considerando que esses meios evoluem e modificam-se rapidamente e, ao que parece, a escola nem tanto, nossa reflexão caminha no sentido de ajustar as relações entre as instituições de ensino e os modernos recursos midiáticos. Parece que, na realidade da sala de aula, muitos se inibem, têm dúvidas, medo de arriscar, ousar, ou, então, as dificuldades, os empecilhos do sistema escolar provocam desânimo.
Neste momento, faremos algumas considerações sobre o uso da programação comum da TV na escola e um breve comentário sobre a Internet e a mídia em geral.
Há educadores que são totalmente contra o uso da televisão na escola. Dizem que quanto menos TV, principalmente para as crianças, melhor, mesmo que se pense nos bons programas, excluindo os reality shows e programas de baixa qualidade. Argumentos não faltam: quanto maior o número de horas diante da televisão, mais aumenta o risco de violência, devido a uma tendência de imitação de comportamentos violentos; a TV é para entretenimento, a escola é para estudar etc.
O jornalista e professor Eugênio Bucci, em sua coluna De olho na televisão, publicada na revista Nova Escola (março de 2002), critica a programação televisiva por não possibilitar o desenvolvimento do raciocínio do telespectador. Segundo ele, “ver TV, quase sempre, é sinônimo de pôr o raciocínio em repouso”, ou seja, “não se aprende a raciocinar vendo TV.” No entanto, “existe hoje um certo endeusamento da televisão como ferramenta da educação. É um endeusamento indevido. (...) A TV pode ajudar o professor, mas jamais substituí-lo. Pode até ilustrar as lições, mas jamais guiar o pensamento abstrato, feito de palavras e números. (...) O raciocínio não é entretenimento, mas trabalho mental.” O autor termina o texto dizendo que a televisão “não é capaz de pegar o aluno pela mão e levá-lo aos passeios do raciocínio. Para isso existe o professor, o diálogo, a palavra escrita, o número e a escuridão do que ainda está por ser conhecido.”
A falta de criatividade do jovem – tão apontada por docentes como sendo um dos grandes entraves para os exercícios de produção de texto – parece ter estreita relação com a exposição da criança e do jovem à televisão. A produção dos alunos tem sido “uma espécie de cópia dos padrões consagrados pela televisão”. Bucci (jan./fev. de 2002), em outro texto, diz que:
Já não é mais na escola que a criança aprende a separar o feio do bonito, o certo do errado, a virtude do vício. É na mídia que ela aprende isso. A função de hierarquizar os valores, que já coube à religião e, até meados do século XX, também à instituição escolar, encontra-se hoje usurpada pela tela da TV. Não é fácil. O professor se sente “competindo” com a mídia. Ele precisa ensinar valores éticos e estéticos que a TV “desensina”.
Outro problema causado pela exposição de crianças (adolescentes e adultos também) por muitas horas em frente à TV é a falta da interatividade característica desse meio de comunicação. O telespectador não tem a oportunidade de construir seu próprio discurso – mesmo em relação àqueles programas que se dizem interativos – por não poder dialogar com a televisão. Se partirmos da idéia de que o eu só se constrói na relação com o outro, falta aí a interatividade necessária à constituição do sujeito.
Entretanto, não é fingindo que a TV não existe que resolveremos os problemas da educação. Esse veículo midiático está em quase todos os lares e a grande maioria dos alunos está exposta à sua programação pelo menos em um período do dia. Os estudantes, assim como a maior parte da população em geral, assistem à televisão. E será que ela só traz aspectos negativos ao ser utilizada na escola? Assim, estudá-la e olhar criticamente para sua programação pode ser um caminho para não se deixar “contaminar” pelos males que ela possa causar.
Se o jornal tem auxiliado muito no processo educativo, proporcionando a possibilidade de leitura crítica de seus textos, com a televisão poderá ocorrer o mesmo, e ainda ampliar-se o rol de gêneros de textos a serem estudados, pois esse veículo contém a imagem em movimento, além da palavra, formando um conjunto intersemiótico para ser lido e estudado.
Quanto à Internet, fenômeno mais recente, seu uso vem trazendo uma nova discursividade, uma nova linguagem que, é lógico, também necessita de estudos e debates para que se possa conhecê-la e tirar proveito para o trabalho pedagógico. Ela está se tornando cada vez mais necessária para todos, como o telefone e o automóvel e poderá mudar substancialmente muitos dos nossos hábitos; ela chegou para transformar a nossa história. Seu uso cresce tanto que os textos virtuais terão (até já estão tendo) outros suportes que não o computador pessoal daqui a pouco tempo: telefone celular, televisão ou algum outro utensílio.
O interessante é que ela cria um novo espaço de comunicação, diferente, direto, nem sempre mediado pela imagem (como na TV) e cria a possibilidade de diálogo. Não há o emissor unilateral, não há centralização de produção, de poder. Seu uso torna-se imprescindível à escola, aos professores e alunos.
No entanto, a maneira como utilizá-la deve ser bem direcionada para que não prejudique a educação das crianças e adolescentes. Há várias questões a serem discutidas, sobretudo quando pensamos na leitura com esse novo suporte (virtual) de textos: a enorme quantidade e velocidade de informações da rede; a qualidade de seu conteúdo; o acesso a essas informações; a constituição da identidade, da subjetividade do leitor e o papel do professor.
Nesse contexto, a orientação dos professores é fundamental. Mas as relações dos docentes com a Internet é outra questão merecedora de reflexão. Faz-se necessária, portanto, a discussão sobre como aproveitar os recursos da Internet sem que os alunos percam a criatividade. O professor deve estar bem preparado para auxiliar os estudantes e também ser leitor de textos virtuais.
Nos últimos anos houve uma mudança na situação educacional da sociedade: nos anos 60, as crianças eram “educadas” pelos pais, pela escola, pelo cinema e pelos amigos; hoje, esse papel está distribuído entre a televisão (principalmente), os jornais, as revistas e a Internet. É, portanto, crescente importância da mídia como instrumento de informação no cenário do país e como formadora de opinião. Se eliminarmos a idéia de que a educação deve se restringir à escola, quando, na verdade, está articulada com toda a sociedade como instrumento essencial na formação do indivíduo, os meios de comunicação poderão ser vistos como auxiliares na construção da cidadania. Para isso é necessária, por um lado, a conscientização dos profissionais da mídia de seu papel como agentes dos processos educativos em favor da população; por outro, a formação de educadores para dialogarem com a mídia e serem críticos dos veículos.
Em favor do uso da mídia na formação do cidadão, José Marques de Mello (1999: 41, 42) diz que “uma notícia de jornal conduz a um filme, um seriado de televisão estimula a leitura de um livro, um programa de rádio incita à audição de um disco, um filme motiva a compra de um fascículo ou uma revista.” Assim, teremos cidadãos instruídos que exigirão melhor qualidade da programação de tais veículos. O autor mostra que a “própria indústria midiática, estruturada segundo as regras da economia de mercado, procura captar os anseios dos consumidores, atuando em consonância com as suas expectativas. E quanto maior for a competição entre as produtoras, mais benefícios terão os consumidores, pela variedade de opções existente” (p. 41).
Ler o discurso da mídia é condição para a inserção do sujeito na sociedade e na História de seu tempo.
O acesso à leitura – um bem cultural – deve ser oportunizado a todos os cidadãos. Ler a palavra escrita, a palavra oral, a palavra não-dita, implícita no contexto ou em uma imagem, e depreender o sentido que emana de fatores lingüísticos e extralingüísticos torna-se prioridade na escola e fora dela. O analfabeto, hoje, não é simplesmente aquele que não sabe ler ou escrever, mas o que não compreende os textos que o circundam (Ghilardi, 1999: 107).
O novo deve ser estudado na escola, que continuará seu papel de investir na construção do saber, não se omitindo de participar dos acontecimentos ao seu redor. Ainda nesse sentido, citamos Citelli (35) que defende a idéia de que a inserção da escola no ecossistema comunicativo é um desafio para todos os educadores:
A escola, enquanto instituição privilegiada no contexto da formação da sociabilidade, deve otimizar o seu papel, ampliando o conceito de leitura e aprendizagem, equipando-se para entender melhor os significados e os mecanismos de ação das novas linguagens, interferindo para tratar as mensagens veiculadas pelos meios de comunicação de massa à luz do conceito de produção dos sentidos, algo que se elabora por uma série de mediações e segundo lugares específicos de constituição, que incluem interesses de grupos, valores de classes, simulacros, máscaras etc.
Concluindo, nossa tentativa, aqui, é a de mostrar que:
• a mídia sozinha não muda o comportamento da pessoas;
• ao lado da mídia existem outros mecanismos e agências socializadoras como a família, a Igreja, o grupo profissional, a comunidade e a escola;
• é necessário conhecer com profundidade os vários veículos midiáticos para que se possa criticá-los e usufruir de seus benefícios;
• há experiências positivas do uso da mídia na escola;
• os projetos de estudo dos textos midiáticos são programas de incentivo à leitura;
• o papel do professor é fundamental no uso que se faz da mídia.
Objetivamos levantar questões para um debate que apenas se inicia e criar espaço para a discussão sobre as relações da mídia com a educação. Assim, indagamos:
• Será que a educação é que deve preocupar-se com a mídia, incorporá-la em seus projetos, ou a mídia é que deveria dar (mais) espaço à educação?
• Qual é o papel da rádio e da TV educativas?
• Como os meios de comunicação podem contribuir significativamente para a preparação do educando para a conquista da cidadania?
• Que a mídia influi na educação e é formadora de opinião, é fato. Então, se houvesse maior preocupação dos meios de comunicação com a formação das crianças e dos jovens, muitos problemas educacionais estariam resolvidos. Ou será que investir em educação não traz retorno publicitário e econômico aos veículos midiáticos?
• Qual é o real papel da escola? Dar educação formal e possibilitar a apropriação e a assimilação de conhecimentos e habilidades úteis e/ou necessárias à vida do indivíduo dentro da vida social? Há os que acreditam que ela é a “redentora universal da sociedade, na esperança de que sua ação possibilite a eqüidade social“; há os que “entendem que a escola só pode servir para a reprodução do modelo social, pois ela sempre esteve a serviço das classes dominantes, através da reprodução dos seus valores ou por meio da violência simbólica, inculcando valores dominantes e criando hábitos permanentes de pensamento e conduta” (...) e há os que “consideram que a escola pode ter um papel no processo de transformação da sociedade, não propriamente como um mecanismo social ao lado de outros, que possibilita o encaminhamento da transformação (Luckesi, 1986: 37).
A busca de soluções para os problemas das escolas que não conseguem/conseguiram acompanhar a evolução dos tempos e tirar proveito das relações com a mídia deve ser coletiva, mas o esforço individual conta muito nesse momento.
Esperamos incentivar trabalhos e propostas de pesquisa, que contribuiam para a reflexão dos envolvidos com a educação e gerar, então, mudanças de atitude que possam aprimorar nossas escolas.
( Maria Inês Ghilardi-Lucena -Centro de Linguagem e Comunicação, PUC-Campinas)



Referências bibliográficas
BUCCI, E. As tristes cópias do medíocre. In Editora Abril, Nova Escola. Janeiro/fevereiro de 2002, p. 12.
BUCCI, E. O raciocínio e o entretenimento. In Editora Abril, Nova Escola. Março de 2002, p. 14.
CITELLI, A.O. Educação e mudanças: novos modos de conhecer. In CITELLI, A.O. (coord.) Outras linguagens na escola: publicidade, cinema e TV, rádio, jogos, informática. Coleção Aprender e ensinar com textos, v. 6, São Paulo: Cortez, 2000, p. 17-38.
GHILARDI, M.I. Mídia, poder, educação e leitura. In BARZOTTO, V.H. e GHILARDI, M.I. (orgs.) Mídia, educação e leitura. São Paulo: Anhembi-Morumbi/ALB, 1999, p. 103-112.
LUCKESI, C.C. Presença dos meios de comunicação na escola: utilização pedagógica e preparação para a cidadania. In KUNSCH, M.M. (org.) Comunicação e educação – caminhos cruzados. São Paulo: Loyola/ AEC do Brasil, 1986.
MELLO, J.M. de. Estímulos midiáticos aos hábitos de leitura. In BARZOTTO, V.H. e GHILARDI, M.I. (orgs.) Mídia, educação e leitura. São Paulo: Anhembi-Morumbi/ALB, 1999, p. 39-47.


 






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