Angustiar para Ser
Pensar nos leva a angústia, leva ao medo. Talvez esteja aí o dificuldade de aprender a filosofar, pois saber pensar dar medo, causa angústia. A ignorância nos dar uma sensação de conformidade com o que quero como real, nesta fase me preencho com uma fuga do real para o imaginário. Cria- se uma forma de vida, e não informação do meu existir.
Seguindo a idéia de Kierkegaard, na sua perspectiva de angústia, ele nos alerta para uma fuga, apegar-se num papel, criar uma personagem é vivê-lo como se a vida fosse um conto de fadas, diria fugir do real. Pois para o autor somos seres livre, cheios de possibilidades, mas ao deparamos com essa liberdade, ela gera ao homem a angústia, o que pode levá-lo ao desespero. Neste ato de desespero ele pode fugir do seu existir. Ao invés de encontrar com sua existência ele fantasia seu própria existir. Como a personagem da obra de Clarice Lispector na obra “A hora da estrela” Macabéa que não encontra consigo mesmo na vida, procura ajuda de uma cartomante para dar sentido a sua existência, até então aquela nordestina que não tinha existência diante do mundo carioca, passa a sonhar, ia encontrar seu grande amor, seria mulher de estrangeiro. No entanto o que essa personagem não sabia é que a cartomante só alimentou o sonho, aqui no sentido de (fuga do real), pois uns instantes ela assumiu o personagem de mulher feliz e realizada, esquecendo que sua vida era medíocre e sem grandes anseios de bom futuro. Esqueceu que ser livre é conhecer seu próprio existir, e não transcender para algo que à sua personalidade não pertence.
Na procura pela liberdade, de existir, esqueço que ser livre é lidar com o sentimento de desespero. Deparar comigo mesmo é muito difícil, sentir causa dor, por isso prefiro ver o outro, falar do outro, é mais cômodo e não me dar a certeza que a vida é pura angustia, e quem sabe até procurar uma “cartomante” para me guiar no meu existir. Ser para mim e muito difícil. É constrangedor lidar com o fato de que como humano sou limitado, sou um ser para o fim, ou para a morte, ter contato com a definição de mim é encontrar com meu presente, que segundo o Rubem Queiroz Cobra em seu texto “ Existencialismo” diz : “na angústia, o homem experimenta a finitude da sua existência humana. Todas as coisas supérfluas em que estava mergulhado se afastam deixando-o a nú, como uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zum Tode). Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve seus conflitos. A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.”
No entanto a angustiar causa mal estar, mas é necessário, posso dizer, sem medo, que é um mal necessário, angustiar é doloroso, mas nos ensina a tornar humano e estar para o mundo, citando a personagem de Clarice Lispector ,Macabéa,que quando em vários momentos se vê perdida na sua personalidade e procura na angústia um encontrar consigo mesmo, e descobre que morrer é necessário, morrer é existir, aqui diria que a morte existência é necessária a todos, a narradora diz: “ ela estava enfim livre de si. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo”(pag.105). Mas o difícil para cada ser vivente é compreender que a angustiar e morrer são bens necessário e passam.
E como diz a professora Claudia Murta a angústia, “...para os que conhecem a sensação, sabem como ela é terrivelmente real (...) ... oferece um desafio àqueles que procuram estabelecer, sobre a mesma, distinções estritas, pois ela tende infalivelmente a cair entre as múltiplas distinções”. (...) a angustia esta representado em nosso real, é afeto de nosso existir. Mas como é duro lidar com esse afeto.
Dentre muitos fatores falar da angústia e despertar em mim o desejo de aprender a lidar com o sentimento de angustiar, saber conjugar esse verbo é aprender a nomear cada situação que ele me proporcionar, que o mesmo venho em forma de afeto como diz Lacan, em forma de liberdade como diz Kierkegaard ou como ressurgir, morrer para a existir, para Heidegger. O importante é que não se vive bem sem angustiar. Necessitamos de angústia para o bem viver, para compreender que temos um presente para ser vivido, o passado para ser lembrado e um futuro para idealizamos.
Como nos diz a professora Claudia Murta em seu texto, “ A ANGÚSTIA E O RESTO ENTRE KIERKEGAARD E LACAN” ,
“O fenômeno da angústia, graças a sua ligação com o nada, mostra como o ato humano não se explica nem pela necessidade, nem por uma liberdade abstrata, mais abstrata ainda que a necessidade; graças a seu caráter de ambigüidade que prepara uma ruptura, explicita a mistura de liberdade e determinação que está no pecado e por mostrar como o pecado é, ao mesmo tempo, individual e universal. O fato de a angústia preceder e seguir o pecado permite encontrar na própria angústia um elemento comum entre o pecado original e os outros. Para Kierkegaard todo homem é angustiado, mesmo o mais feliz de todos. A angústia é característica humana. Quanto maior é a sua angústia, mais humanizado se torna o homem”.
Portanto pensar em angústia é acreditar, no desenvolvimento existêncial, na possibilidade de viver para ser humano. Como diz Clarice Lispector na obra a Hora da Estrela, “(...) só não início pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida(...) ”(pag.26). A partir do momento que crermos que a morte existencial é a possibilidade de crescimento para o bem viver comigo e com o mundo, podemos morrer fisicamente, entendendo que (...) assim como ninguém lhe ensinara um dia a morrer: na certa morreria um dia como se antes tivesse estudado de cor a representação do papel de estrela(...) ( pag.44).
Bibliografia:
Lispector, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro, Ed. Rocco. 1998.
COBRA, Ruben Queiroz. Existencialismo, 04 jun. 2001. Disponivel em < http://www.cobra.pages.nom.br/ftm-existencial.html>. Acesso em: 15 abril 2011.
MURTA, Claudia. Pessoa, Fernando. Angústia e Psicanálise. Vitória, ES: Universidade Federal do Espírito Santo, Núcleo de Educação Aberta e a Distancia, 2011.
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